Framework de estudos – Estudar de forma mais eficiente com técnicas de estudos (D do PDCA – Parte 1)

Introdução

Se ainda não leu os posts anteriores, sugiro que o faça antes de começar este. Você pode começar pelo primeiro e ir navegando nos próximos até chegar aqui.

No post anterior, focamos no planejamento (P, do PDCA) para tornarmos o processo mais eficaz, diminuindo nosso escopo de estudos para aquilo que está alinhado com a nossa visão de longo prazo. Com o planejamento montado, voltamos nossa atenção para a execução do planejamento (D, do PDCA), onde nosso foco está na eficiência. Pelo lado da eficiência, iremos olhar para duas dimensões: técnicas de estudos e aumento de foco. Neste post, irei abordar apenas a primeira delas. Em um post futuro, falarei sobre a segunda.

Técnicas de estudo

Minhas recomendações de técnicas de estudo são fortemente inspiradas no artigo Improving Student’s Learning with Effective Learning Techniques [1], que analisou mais de 50 artigos científicos com o intuito de classificar algumas técnicas de estudos como de baixa, média ou alta utilidade. Como critério principal, foi analisado o quanto a técnica é generalista, ou seja, o quanto ela funciona para diferentes materiais de estudo (mapas, conceitos matemáticos e textos), condições de estudo (instrução direta, leitura, escrita, estudo individual e estudo em grupo), características dos estudantes (idade, interesse, motivação e conhecimento prévio) e tarefas a serem executadas (resolução de problemas, desenvolvimento de argumento, ensaio escrito e testes de avaliação).

O artigo também leva em conta a quantidade de evidências disponíveis sobre a eficiência da técnica e o tempo necessário para seguí-la, ou seja, se a técnica traz resultado, mas requer muito tempo para usá-la ou aprender a usá-la, ela perde alguns pontos.

A seguir, comentarei sobre algumas das técnicas apresentadas pelo artigo seguida de uma breve descrição. Em alguns casos, adicionei uma pitada de opinião baseada em minhas experiências pessoais. Procurei ordenar das menos úteis para as mais úteis por algumas razões: primeiro, porque preferi começar pelas mais conhecidas e que requerem menos explicações; segundo, para utilizar alguns pontos negativos das primeiras para justificar o uso das últimas, dando um senso de progresso.

Grifos

O estudo aponta que a técnica é a mais usada e não possui nenhum benefício aparente. A maior parte dos estudantes tende a grifar sem muito critério e em excesso, perdendo o seu efeito prático, que é destacar as partes importantes (afinal, se tudo é importante, nada é importante). Ao grifar, não estamos organizando, criando ou conectando conhecimentos.

Releitura

Assim como o grifo, a releitura é uma das técnica mais usadas. Utilizá-la isoladamente pode nos dar a falsa sensação de que “aprendemos”, quando na verdade apenas “entendemos” o assunto estudado. Outro ponto negativo, é que a releitura leva muito tempo, principalmente para textos longos. Por esses motivos, a técnica foi classificada como de baixa utilidade.

Resumo

O resumo foi classificado pelo artigo como de baixa utilidade por exigir mais técnica e tempo, na média, quando comparada às seguintes.

Porém, como o escopo do artigo era analisar as técnicas isoladamente, alguns benefícios que considero importantes foram deixados de lado, o que provavelmente aumentariam a sua utilidade. Na minha visão, a técnica é muito útil para materiais muito extensos e que serão revistos muitas vezes, já que diminui o tempo de execução de outras técnicas, como a releitura.

Auto-explicação

Trata-se de estudar o conteúdo e tentar explicá-lo com nossas próprias palavras, idealmente, em voz alta. A técnica é muito útil para colocar o nosso aprendizado em teste. Durante a auto-explicação, é muito comum descobrirmos falhas no processo de aprendizagem, já que é muito difícil explicar e argumentar sobre pontos que não aprendemos de fato. Nesses casos, podemos recorrer à releitura para rever essas partes específicas ou consultar outras fontes.

Interrogação elaborativa

A técnica consiste em elaborar perguntas durante a leitura, pensando sobre a resposta ou procurando-a no próprio texto. Dessa forma, é possível reter mais informação, pois a leitura está sendo feita de forma mais ativa e não no “modo automático”. A técnica foi classificada no artigo como de utilidade moderada. Contudo, acho que alguns benefícios que poderiam elevar a sua classificação não foram considerados, já que os experimentos envolviam a leitura de textos simples. Em textos mais complexos, a técnica nos ajuda a encontrar argumentos falhos, enviesados ou mal explicados, forçando-nos a consultar outras fontes e a enxergar o problema por outras perspectivas.

Exemplo:

1 – Imagine que nos deparamos com a seguinte informação durante a leitura de um livro: “A técnica x é melhor do que a técnica y”. Usando interrogação elaborativa, poderíamos questionar:

  • Por que a técnica x é melhor do que a y?

Apesar de ser uma pergunta muito simples, ela nos força a procurar mais ativamente pelos argumentos, mantendo a leitura mais ativa e focada.

2 – Ao nos depararmos com os argumentos (ou a ausência deles), podemos elaborar novas perguntas que nos ajudam a verificar se eles são coerentes quando confrontados com a afirmativa:

  • Os argumentos são satisfatórios para responder que a técnica x é realmente melhor?
  • Os argumentos são baseados apenas em experiência pessoal ou são embasados com boas referências?
  • Isso se aplica sempre ou apenas em determinadas situações?

Essas perguntas nos ajudam a analisar, por exemplo, a coerência, confiabilidade e imparcialidade do conteúdo estudado.

3 – Por fim, pode-se analisar o texto como um todo e verificar pontos que não foram abordados:

  • Será que há outros autores que acham o contrário, ou seja, que a técnica y é melhor do que a x?

Esse tipo de pergunta nos força a procurar outros materiais e a analisar o mesmo problema por outras perspectivas e, quem sabe, compará-las e aprender ainda mais nesse processo.

Prática distribuída

Existe uma certa unanimidade com relação a esta técnica: as referências [1], [2] e [3] são bastante enfáticas ao considerá-la como uma das mais efetivas no processo de aprendizagem. A prática distribuída é pautada em algumas premissas sobre o funcionamento do cérebro:

1 – o cérebro possui enorme capacidade de armazenamento, mas consegue reter pouca informação por unidade de tempo. Ou seja, é como um pendrive que cabe milhões de eBooks, mas você só consegue transferir algumas poucas páginas por dia para ele.

2 – o cérebro é muito seletivo na hora de escolher o que armazenar na memória de longo prazo. Nosso cérebro captura incontáveis informações a cada segundo: a posição, movimento e cor dos objetos à nossa volta, o som e o cheiro do ambiente, a interpretação de palavras ditas e escritas etc. Se ele armazenasse tudo, teríamos muita informação inútil no nosso cérebro. Por isso, guardamos na nossa memória de longo prazo apenas uma fração minúscula daquilo que vivenciamos.

Com base no item 1, é melhor distribuir o estudo ao longo do tempo a concentrar toda a aprendizagem em grandes blocos. Para quem não está acostumado, este é um dos itens mais difíceis de se seguir, pois aprendemos desde pequenos a “estudar” um pouco antes das provas para não esquecer.

Ao estudar muito em um curto espaço de tempo e de última hora, conseguimos fazer a prova, mas esquecemos em pouco tempo o que foi estudado. Além disso, se temos o mindset de estudar antes da prova, quando terminamos a época de estudos formais, tendemos a não estudar mais, pois não há provas.

Com base no item 2, além de diluir os estudos ao longo do tempo, é importante revisá-los periodicamente. Assim, indicamos ao nosso cérebro, por meio da repetição, que aquela informação é importante e deve ser armazenada na memória de longo prazo. Mas não adianta revisitar o assunto várias vezes em um curto período de tempo. O ideal é revisar o conteúdo de forma cada vez mais espaçada. A Figura 1 representa bem a ideia: com estudos cada vez mais espaçados no tempo, as curvas, que representam o esquecimento, vão ficando cada vez menos inclinadas.

Figura 1 – Retirado de The knowledge and learning transfer problem [4]

Para testar a eficácia da prática distribuída, foi realizado um experimento no qual os estudantes tinham um material a ser estudado durante 6 sessões com testes práticos ao final de cada sessão. 30 dias após a última sessão, era realizado o teste final. Os estudantes foram divididos em 3 grupos. A única diferença entre eles era o tempo de espaçamento entre uma sessão de estudos e outra, que foram de 0 (todas as sessões no mesmo dia), 1 e 30 dias.

A Figura 2 mostra que o grupo de estudantes que estudou com 30 dias de espaçamento entre as seções tinha muita dificuldade durantes as sessões, mas obtiveram um resultado muito melhor no teste final, pois armazenaram a informação na memória de longo prazo. O efeito inverso pode ser constatado pelos grupos de estudantes que usaram espaçamento de 0 e 1 dia.

Figura 2 – Retirado de Improving student’s learning with effective learning techniques [1]

Conclusão

O artigo recomendado aponta que os estudantes tendem a usar as técnicas que são mais fáceis de seguir. O problema, é que essas técnicas, geralmente, são as que exigem menor esforço cognitivo e, por consequência, são as que possuem menor efeito prático. Ou seja, as técnicas menos eficientes tendem a ser as mais usadas. Pense se esse não é o seu caso.

Outro ponto a se destacar, é que o artigo tinha o intuito de analisar cada uma das técnicas de forma isolada, o que é bem comum na ciência para facilitar o entendimento dos fenômenos. Contudo, acredito que algumas técnicas possuem mais benefícios quando usadas em conjunto. Por isso, a minha sugestão é que você teste diferentes combinações de técnicas de estudos e veja as que mais funcionam para você e em quais circunstâncias. Tente criar métricas que lhe ajudem a tomar essas decisões, mas tome certo cuidado, pois, assim como ir apenas pelo feeling, usar as métricas erradas pode fazer você tomar decisões erradas. Por exemplo, quem olha apenas a parte da esquerda da Figura 2 pode ter a falsa sensação de que a prática distribuída não funciona. Infelizmente, ainda não encontrei uma forma ideal de avaliação. Acho que é preciso um mix de leitura de artigos, feeling, experimentação e métricas para a melhor tomada de decisão.

Referências

[1] Improving student’s learning with effective learning techniques – John Dunlosky, Katherine A. Rawson, Elizabeth J. Marsh, Mitchell J. Nathan e Daniel T. Willingham
[2] Learning how to learn: powerful mental tools to help you master tough subjects – Dra Barbara Oakley e Dr. Terrence Sejnowski
[3] Como o cérebro aprende – Prof. Pierluigi Piazzi
[4] The knowledge and learning transfer problem – _Charles Jennings

Desenvolvedor de Software.
Tenta aprender um pouco de tudo e muito sobre algumas poucas coisas.