Framework de Estudos – Planejar

Introdução

Se você ainda não leu o post anterior, sugiro que o faça antes de começar este. Nele, abordei alguns aspectos que considero importantes no processo de aprender a aprender e forneci uma visão geral do Framework de Estudos que começarei a detalhar a seguir.

Nesta seção, irei falar sobre como fazer o planejamento do que estudar (Plan, do PDCA).

Imagem retirada de https://www.napratica.org.br/o-que-e-e-como-funciona-o-metodo-pdca/

Gostaria de começar com uma citação de Russell Ackoff [1], inspirada em Drucker [2]:

“Há uma diferença entre fazer as coisas do jeito certo e fazer as coisas certas. Fazer as coisas certas é sabedoria, eficácia. Fazer as coisas do jeito certo é eficiência. E o curioso é que quanto melhor você faz a coisa errada, mais errado você está. Se você está fazendo a coisa errada, comete um erro e corrige, você se torna mais errado ainda. Então, é melhor fazer a coisa certa do jeito errado do que fazer a coisa errada do jeito certo.”

De um modo geral, tendemos a focar na eficiência quando, na verdade, seria muito mais produtivo focar na eficácia, pois não há valor algum em fazer muito bem aquilo que não deveria ser feito. Por isso, mais importante do que estudar bem e de forma rápida e eficiente, é escolher muito bem onde gastar esforços. Do ponto de vista do framework, devemos focar primeiro no “o que estudar” (Plan, do PDCA), para só depois nos preocuparmos com o “como estudar” (Doing, do PDCA).

Um erro bastante comum é estudar os assuntos conforme aparecem as necessidades. Sem um planejamento, estudamos sem saber onde queremos chegar e temos grandes chances de chegar a lugar algum ou onde não gostaríamos.

Imagem retirada de https://www.slideshare.net/anaihaeser/estratgias-didtico-pedaggicas-para-a-qualidade-da-relao-prof-aluno-tdah

Para tentar resolver este problema, ando usando uma adaptação muito simplificada do que é descrito no livro Toyota Kata [3]. A Toyota possui uma visão de longo prazo que é bastante abstrata, e até mesmo utópica, conhecida como True North. Contudo, por ser muito difícil de se fazer um planejamento com algo tão distante da realidade, há um planejamento periódico de como a empresa deverá estar no médio prazo, denominada Target Condition.

O Target Condition é um objetivo de curto a médio prazo que representa um pequeno avanço em direção ao True North. Ele precisa ser mais detalhado, específico e mensurável. Quando se chega ao Target Condition, é feito um novo planejamento e um novo Target Condition é definido.

Imagem retirada de [3]

Podemos utilizar esta mesma idéia para selecionar aquilo que iremos estudar, com um objetivo bem definido e alinhado com nossa visão de longo prazo.

Exemplo

Para demonstrar o processo de planejamento, mostrarei a seguir como seria o planejamento fictício de um estagiário chamado João. No exemplo, preferi fazer algumas simplificações e mostrar os passos de uma forma linear para deixar mais didático. Porém, é muito mais provável que seja necessário ir e voltar nos passos à medida que se obtém mais informações.

1 – Visão de longo prazo

Primeiramente, é preciso gastar um bom tempo definindo a visão de longo prazo. Esta visão deve mudar pouco ao longo do tempo. Por isso, ela precisa ser um pouco abstrata. João iniciou com itens como “morar em ao menos 10 países” e “trabalhar apenas com o que gosto”, mas percebeu que tudo isso poderia ser resumido a “viver de renda passiva”, ou seja, ter rendimentos dos seus ativos superior aos seus gastos.

Se ele conseguir atingir este objetivo, terá maior liberdade para escolher seu local de moradia e de trabalho. Foi também adicionado o item “ser fluente em inglês”, pois será primordial caso queira morar no exterior, além de ajudá-lo a ter contato com um maior volume de material de estudos e de vagas de emprego.

2 – Próximo objetivo

Como a visão de longo prazo está muito distante da realidade, é preciso definir um objetivo mais palpável e, ao mesmo tempo, que o ajude a chegar mais perto da sua visão de longo prazo.

João acha que, para viver de renda passiva, precisa primeiro conseguir uma boa renda mensal e ter disciplina para poupar parte dela. Como é estagiário, colocou como próximo passo conseguir uma vaga de desenvolvedor de software Jr. Do lado financeiro, estipulou poupar R$2.000 e encontrar um bom destino para este dinheiro. João já costuma ler pequenos trechos de texto em inglês e estipula que o próximo passo é conseguir ler livros técnicos no idioma. Aqui, é preciso prestar especial atenção para não cair na tentação de se definir o caminho. Nesta etapa, estamos preocupados apenas com os objetivos. O caminho será descoberto de forma iterativa na etapa posterior.

3 – Próximas ações

Por fim é preciso elaborar hipóteses de quais ações devem ser realizadas para se chegar ao próximo objetivo. Conversando com pessoas mais experientes do seu trabalho, João chegou à conclusão de que precisaria entender alguns conceitos e recebeu a recomendação de alguns livros (se você estiver no mesmo caminho, temos recomendações de estudos tanto para o backend quanto para o frontend). Por falta de conhecimento em outras modalidades, decidiu que aplicará 10% do seu salário no Tesouro Direto até conseguir fazer um curso básico na BOVESPA para ao menos conhecer outras opções de investimento disponíveis.

Percebam que, ao contrário das duas colunas anteriores, que representam um objetivo, esta última coluna apresentada define as ações que hipoteticamente o ajudarão a chegar ao próximo objetivo desejado. Dado que a relação entre ação e objetivo não é determinística, é preciso iterar e revisitar as ações ao longo do tempo, criando e testando novas hipóteses e aprendendo com o processo, mas esse é um papo para um outro post.

Finalização

Em um mundo onde o tempo é cada vez mais escasso e valorizado, é primordial escolher muito bem onde gastar esforços. Focar na eficácia antes da eficiência será benéfico não apenas nos estudos, mas em vários aspectos da vida.

Nesse sentido, a fase de planejamento é primordial para se evitar desperdícios. Nos próximos posts, falarei sobre a fase de execução do plano (Doing, do PDCA), onde serão mostradas técnicas de estudos que te ajudarão a tornar o processo mais eficiente.

Referências

[1] Russel Ackoff
[2] O Gestor Eficaz – Peter Drucker
[3] Toyota Kata: Managing People for Improvement, Adaptiveness and Superior Results – Mike Rother

Desenvolvedor de Software.
Tenta aprender um pouco de tudo e muito sobre algumas poucas coisas.